
Entre Laudos
Capítulo 17 · últimas páginas.
Acompanhe histórias enquanto elas acontecem. Obras, personagens, bastidores, vídeos e movimentos de um estúdio narrativo vivo.
Entrar no estúdio →Um olhar sobre o que está em criação, revisão e preparação.

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Realidades que provocam perguntas, criam tensões e permanecem depois da última página.
Ver catálogo →Ideias, reflexões, ensaios e territórios de pensamento que expandem o estúdio.
Ver catálogo →“Há coisas que minhas irmãs acreditam saber sobre mim.”
Valentina Ferraz Bianchi nos recebe em seu apartamento, no Itaim Bibi, para a primeira conversa da Sala Vetor. Personagens também se movem.
Trailers, chamadas, vídeos de livros e séries, teasers e bastidores audiovisuais reunidos em um só lugar.
Publicações, criação, audiovisual, relações e caminhos de expansão do Universo Vetor.
Entre Laudos 17, Dobras de Guerra 7, Vazios que Gritam 7 e Birôs 2 estão prontos para chegar ao leitor.
Valentina Ferraz Bianchi inaugura a Sala Vetor. Personagens também se movem.
Entre Laudos — Fragmentos 01 inaugura o acervo audiovisual do Cine Vetor.
Movimentos comerciais, criativos e novas parcerias também passam a ser registrados aqui.
Instantes de criação, motivações e escolhas: de obras em publicação, como Entre Laudos, a projetos em preparação, como O Sabotador e Enganos. Um olhar sobre o que acontece antes de a história chegar ao leitor.
Abrir bastidores →Personagens também se movem.
Valentina nos recebe em seu apartamento, na Rua Leopoldo, no Itaim Bibi. Sem a formalidade que costuma acompanhá-la fora dali, veste jeans e uma malha clara. Há café, embora ela mesma demore a tocar na xícara. Antes de começarmos, pergunta se a conversa será publicada inteira. Digo que sim. Ela sorri de um jeito que não permite saber se gostou da resposta.
Não combinamos assuntos proibidos. Talvez tenha sido o primeiro erro da entrevista.
SALA VETOR — Você costuma receber jornalistas em casa?
VALENTINA — Não costumo receber jornalistas em lugar nenhum.
SALA VETOR — Então começamos com um privilégio.
VALENTINA — Ou com uma imprudência. Ainda não decidi.
Ela ri. É um riso curto, quase uma pontuação. Depois pega a xícara pela primeira vez.
SALA VETOR — Quem conhece você por Birôs provavelmente formou uma opinião a seu respeito. Isso incomoda?
VALENTINA — Não. Opinião é uma coisa muito econômica. Você pega meia dúzia de informações, preenche o que falta com aquilo que já acredita e pronto: conhece alguém. Eu também faço isso. A diferença é que procuro me lembrar de que posso estar errada.
SALA VETOR — Sobre suas irmãs também?
A xícara volta ao pires.
VALENTINA — Principalmente.
SALA VETOR — Donata diria o mesmo sobre você?
VALENTINA — Você deveria perguntar a Donata.
SALA VETOR — Perguntaremos.
VALENTINA — Então eu deveria tomar cuidado com o que digo hoje.
SALA VETOR — Você já não estava tomando?
Dessa vez ela ri de verdade.
VALENTINA — Agora entendi por que quiseram fazer a entrevista aqui.
SALA VETOR — Por quê?
VALENTINA — Porque fica mais difícil levantar e ir embora.
Há respostas que encerram um assunto. A de Valentina faz exatamente o contrário.
SALA VETOR — Vamos falar do Birô. Para quem olha de fora, parece haver ali uma mistura difícil de separar: trabalho, poder, família, lealdade...
VALENTINA — Porque é difícil separar.
SALA VETOR — Isso não é perigoso?
VALENTINA — Tudo que importa é perigoso quando você acredita que consegue controlá-lo completamente. Família, dinheiro, poder, amor... talvez principalmente amor.
SALA VETOR — Você colocou amor nessa lista com alguma dificuldade.
Silêncio. Ela olha por alguns segundos para a janela.
VALENTINA — Você colocou.
SALA VETOR — Eu apenas percebi.
VALENTINA — Jornalistas têm essa mania de chamar interpretação de percepção.
Ponto para ela.
SALA VETOR — E advogados?
VALENTINA — Chamam interpretação de tese.
SALA VETOR — Melhor?
VALENTINA — Mais honesto.
SALA VETOR — Há alguma coisa que suas irmãs acreditam saber sobre você e que esteja errada?
VALENTINA — Claro.
SALA VETOR — O quê?
VALENTINA — Se eu disser, elas deixam de acreditar.
SALA VETOR — Essa não seria justamente a ideia?
VALENTINA — Sua. Não necessariamente a minha.
SALA VETOR — Você confia nas suas irmãs?
VALENTINA — Confio.
SALA VETOR — Nas duas?
VALENTINA — Tenho quantas?
A pergunta vem acompanhada de um sorriso. Não sei se fui corrigido ou advertido.
SALA VETOR — Reformulo. Você confia igualmente nelas?
VALENTINA — Ninguém confia igualmente em duas pessoas diferentes. Nem deveria. Confiança não é um pacote fechado que você distribui em porções iguais.
SALA VETOR — E lealdade?
VALENTINA — Também não.
SALA VETOR — Você é leal?
VALENTINA — A quem?
SALA VETOR — Essa resposta me interessa mais do que um sim.
VALENTINA — Então fique com ela.
SALA VETOR — Existe uma Valentina que o leitor ainda não conhece?
VALENTINA — Espero que sim. Seria muito triste caber inteira em dois episódios.
SALA VETOR — O que ele entendeu errado até agora?
VALENTINA — Você está insistindo em saber o que os outros pensam de mim.
SALA VETOR — Porque você parece saber.
VALENTINA — Eu sei algumas coisas.
SALA VETOR — E prefere não corrigi-las.
VALENTINA — Às vezes uma pessoa revela muito mais quando está errada a seu respeito do que quando você explica quem é.
SALA VETOR — Você é uma mulher difícil de entrevistar, Valentina.
VALENTINA — Não. Sou uma mulher difícil de concluir.
SALA VETOR — Quando você pensa no que ainda está por acontecer em Birôs, sente medo de alguma coisa?
VALENTINA — Sim.
SALA VETOR — De quê?
VALENTINA — De descobrir que algumas coisas que fiz para proteger minha família talvez tenham protegido apenas a história que eu contava para mim mesma sobre ela.
Desta vez não faço a pergunta seguinte. Talvez porque exista uma. Talvez justamente por isso.
VALENTINA — Acabou?
SALA VETOR — Por hoje.
VALENTINA — Melhor assim.
Quando nos despedimos, ela acompanha a equipe até a porta. Antes de fechá-la, pergunta se vamos mesmo conversar com Donata. Confirmo.
VALENTINA — Então não diga a ela que eu mandei um beijo.
SALA VETOR — Você não mandou.
VALENTINA — Exatamente.
A porta se fecha. E, pela primeira vez desde que chegamos, tenho a impressão de que Valentina Ferraz Bianchi respondeu exatamente aquilo que queria responder. O problema é descobrir a quais perguntas.
Sala Vetor — Conversas de dentro das histórias.
Personagens também se movem.
Imagens, atmosferas e fragmentos de uma história em movimento.
Histórias também se movem.